sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Braços Abertos aos Médicos Cubanos

[Texto escrito por Mário Maestri, disponível em "http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8784%3Asubmanchete280813&catid=72%3Aimagens-rolantes" - acesso em 13/09/2013, 11h24]

A insurreição de associações profissionais e de milhares de médicos e estudantes de medicina contra a chegada dos colegas cubanos tem registrado despudoradamente o abismal nível de desumanização produzido pela mercantilização da saúde no Brasil. Os milhões de brasileiros desassistidos surgem como referências imateriais na retórica cínica que defende qualidade do serviço médico que a população brasileira desconhece, seja na área pública e, comumente, igualmente na privada.

No frigir dos ovos, defendem apenas a restrição do número de médicos, em prol da manipulação safada das leis do livre-mercado. Com menos médicos, melhores negócios!  E a população que se lixe! Sob a escusa da excelência da formação e das prestações médicas, defendia-se, ontem, a restrição do número de universidades de medicina e, hoje, o monopólio corporativo do ato médico e o embargo à chegada de profissionais do exterior, com destaque para os cubanos, socialistas e, horror dos horrores, não poucos negros!

Que venham aos milhares!

Que venham os médicos cubanos, às dezenas de milhares! Mesmo que cheguem apenas para tapar os buracos da incúria governamental quanto à saúde pública, mais e mais encurralada no balcão de negócios da medicina privada.  Mercantilização da saúde popular aplaudida pela indústria hospitalar, de medicamentos e de planos de saúde; por associações de classes; pelos milhares de profissionais privilegiados – ou apenas seduzidos – por profissão transformada em meio de enriquecimento sem limites.

Que dezenas de milhares de médicos cubanos sejam distribuídas pelos ermos perdidos dos extremos sociais e geográficos do nosso país! Que povoem o interior distante do Acre ou a periferia próxima de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre e de Salvador. Ainda que tais colocações penosas devessem ser momento transitório – e profissionalmente enriquecedor – de carreira médica público-estatal. Não é isso que fazem os concursados do Banco do Brasil e os membros da forças militares, sem “choro e ranger de dentes”?

Entre os médicos cubanos chegará algum incompetente, como propõem denúncias literalmente histéricas? Certamente. E quem de nós já não se encontrou com profissionais ineptos, mesmo nos consultórios e hospitais privados de nossas mais adiantadas capitais? Sem que haja meios de afastá-los de uma profissão para a qual não se qualificaram técnica ou moralmente. Ao contrário do que ocorrerá no caso dos médicos visitantes. Qualquer erro que fizerem terminará com enorme destaque na telinha da rede Globo e nas páginas da Folha de São Paulo, Estadão, Zero Hora et caterva.

Meros Paliativos

Acusam-se os médicos cubanos de serem paliativos para situação calamitosa e meios de publicidade política de governo que persegue desesperadamente a avaliação positiva perdida.  No que não estão errados. Ao igual que as administrações anteriores, lulistas e pré-petistas, Dilma Rousseff apostou na medicina mercantil, nos planos de saúde, no financiamento privado dos cuidados médicos por população brasileira transferida maciçamente por decreto para a classe média! E teve como resposta a reivindicação por saúde e educação pública e gratuita de multidões enraivecidas que sequer conseguem pagar 3,20 reais por passagem de ônibus urbano! Engrossadas por aqueles que conseguem pagar a passagem mas são depenados pela medicina e pela educação privada!

Entretanto, não é menos certo que os médicos cubanos e estrangeiros salvarão a vida e mitigarão as penas urgentes de milhões de desassistidos, mesmo quando eventualmente não dispuserem das instalações condizentes, como também denunciado. Instalações que certamente serão por eles reivindicadas. Tudo isso enquanto se discute, produtiva ou improdutivamente, com boas intenções ou malevolamente, sobre as soluções estruturais futuras, de longo fôlego.

Os médicos estrangeiros enviados para os cafundós sociais e geográficos do Brasil atenderão brasileiros desconhecedores de serviços médicos mínimos, aos quais têm direito constitucional. Ampliarão a consciência desses brasileiros sobre o valor e a necessária luta por serviço público universal de qualidade. Certamente outros dois motivos da oposição visceral da indústria, de associações e de profissionais da saúde que se locupletam com sua mercantilização.

Por tudo isso e por muito mais, os médicos cubanos – e de outras nacionalidades – devem ser recebidos com festa, com fogos de artifício e braços abertos! Mas atenção. Nosso abraço deve ser o da população agradecida e não o do urso aproveitador!

Em Defesa dos Médicos Cubanos

Os médicos cubanos não são mercenários da medicina, apenas preocupados com a remuneração material. Não são igualmente missionários que se alimentam de princípios morais e políticos – se é que existe tal gente. São trabalhadores especializados que exercerão suas atividades no Brasil. Portanto, encontram-se necessariamente submetidos e protegidos pelas leis trabalhistas nacionais – mesmo que elas sejam pernetas e limitadas.

Os cubanos devem receber a mesma remuneração que os demais estrangeiros. É reivindicação dos trabalhadores, consagrada pela legislação atual, que ao “mesmo trabalho” cabe a “mesma remuneração”. Não importando as diferenças de sexo, raça, idade e nacionalidade. Nenhum casuísmo justifica o desrespeito desse princípio. Pouco importa o que recebem seus companheiros em Cuba, já que eles viverão e trabalharão no Brasil, e não na ilha do Caribe.  Aos médicos cubanos cabe a bolsa de dez mil reais, paga diretamente pelo governo brasileiro.

Se aceitarmos o princípio da missão estrangeira, teríamos que concordar com que governos africanos enviassem trabalhadores contratados, recebendo por eles seus salários das autoridades brasileiras, e pagando-os abaixo do estipulado pela legislação nacional. Não impugna a terrível analogia o fato de que ela tenha sido proposta por interessados em sabotar a vinda dos médicos cubanos, e não em defender seus direitos.

Nada de bantustão!

Os médicos cubanos têm o direito inarredável de trazer consigo seus cônjuges e filhos menores, como todo estrangeiro com contrato de trabalho no Brasil. Tal impedimento permite outra lembrança terrível. Para manter o controle político-econômico, o apartheid construiu os bantustões, pseudo-micro-estados negros, de onde os trabalhadores partiam temporariamente para prestarem serviços nas minas da África do Sul, sem poderem levar consigo as famílias. O que dificultava a radicação na África do Sul e facilitava a manutenção da relação semi-servil.

Não podemos também negar o direito de permanecer no Brasil aos médicos cubanos que assim o quiserem, por razões afetivas e, sobretudo, econômicas.  Ser radical é ir à raiz da questão, e não transformar sonhos e fantasias em realidade. Com a crescente restauração capitalista em Cuba, os trabalhadores ligados à esfera pública conhecem remunerações miseráveis, enquanto prosperam os que conseguem se incorporar à esfera mercantil que canibaliza a economia nacionalizada. A expatriação interessa também aos médicos cubanos pela remuneração em moeda forte, impossível de ser realizada em Cuba no serviço público. [Maestri, Mário. “Cuba sob o signo da restauração capitalista”. www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=5296].

Mas é igualmente indiscutível o direito do Estado cubano de ser remunerado pelos médicos que formou, enquanto trabalham no Brasil, ou caso queiram aqui permanecer. Qualquer coisa diversa seria explorar a esfera pública da sociedade cubana. Essa indenização deve recair totalmente sobre o Estado brasileiro, que se negou a financiar a formação dos trabalhadores da saúde que necessitamos dramaticamente. E não sobre os médicos cubanos.

Em Defesa de Cuba Socialista

É inadmissível o desfrute por qualquer aparato governamental da força de trabalho dos médicos cubanos que devem chegar aos borbotões para ajudarem a suprir as necessidades dramáticas de nossa população.

Apenas o respeito estrito dos direitos civis e trabalhistas mínimos dos médicos cubanos permitirá que essa contribuição inestimável se dê nas melhores condições. E não resulte em todo tipo de constrangimento e aproveitamento por aqueles que se mobilizam para levar tal iniciativa ao fracasso.

O imperialismo estadunidense já tem programa consolidado para fomentar deserção mercenária de médicos e profissionais especializados cubanos no exterior, através de suas embaixadas e consulados. O que constitui uma agressão à economia socialista da ilha, em contínua retração, sob a retórica estadunidense de solidariedade contra a opressão comunista.

Apenas visão progressista tacanha não compreende que também a defesa de Cuba socialista – e do que representou e ainda representa – passa inarredavelmente pela defesa solidária dos direitos de seus médicos no exterior.

Mário Maestri

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A inconstitucionalidade da prisão de "mascarados"



Conforme amplamente divulgado pela mídia, a Justiça do Rio de Janeiro, atendendo pedido formulado pelo Ministério Público, passou a permitr que a Polícia exija identificação de mascarados e leve-os para Delegacias para esse fim, mesmo que não estejam praticando crimes. Essa medida está se alastrado para outros Estados.
Ora, permitida está, via decisão judicial, a temida prisão para “averiguação”, sem situação de flagrante delito, ao arrepio da garantia expressamente prevista na Lei Maior (art. 5º, LXI): “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei”.
É com muita perplexidade que, na atual quadra da História, em que se pretende afirmar suplantado o obscuro período da Ditadura Militar, a Constituição Federal seja tão amesquinhada.
Mais preocupante ainda é que essa grave violação à Constituição tenha sido pleiteada pelo Ministério Público, constitucionalmente incumbido de zelar pelo regime democrático e pelos direitos e garantias indisponíveis, e chancelada pelo Judiciário, cuja legitimidade reside no zelo das normas constitucionais, mormente das cláusulas pétreas, devendo exercer papel contramajoritário.
Preocupa o fato de que, cada vez mais, ocorram violações constitucionais dessa magnitude, em descarado desrespeito ao Estado Democrático de Direito e inegável apego ao autoritarismo.
Sob a justificativa de manter a “ordem”, fere-se de morte a Democracia. O que não se reconhece é que a existência de “ordem” pressupõe respeito de premissas jurídicas básicas (direitos e garantias fundamentais). O sistema penal, especialmente no tocante ao papel ostensivo e investigativo das Polícias Militar e Civil, respectivamente, não prescinde do respeito aos direitos e garantias individuais. Qualquer atuação à margem da legalidade/constitucionalidade, ao invés de garantir a “ordem”, promove caos e violência.
A vedação do anonimato jamais poderia ser utilizada como subterfúgio para a prisão daqueles que usam máscaras. Para tanto, deveria existir expressa previsão constitucional no sentido de possibilitar essa medida coercitiva. No entanto, a Constituição é silente nesse ponto, não sendo possível interpretar ampliativamente o disposto no art. 5º, IV, da CF/88; é comezinho que as regras restritivas de direitos devem ser interpretadas restritivamente. Ora, a Constituição veda o anonimato, e só. Não o tipifica como crime e tampouco permite a prisão de quem se utiliza do anonimato!
A propósito, extrai-se: “IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”.
A bem da verdade, os defensores da prisão dos mascarados não realizam interpretação, mas sim alteração do texto constitucional. Afirmam que a Constituição diz algo que não é dito. E isso é grave, na medida em que é negado o papel das garantias fundamentais, que, por óbvio, é garantir, evitar arbitrariedades.
Conclui-se, portanto, que somente pode ser preso quem for flagrado praticando um delito, esteja ou não mascarado.
A única máscara que deve ser retirada é a do autoritarismo!

Cleiton Luis Chiodi - GEDIS

domingo, 4 de agosto de 2013

Corrupção: uma questão de foco

"A questão da corrupção, portanto, surge
muito mais como uma cortina de fumaça
que encobre as dificuldades estruturais do
próprio sistema do que aquilo que impede
que o sistema funcione 'como deveria funcionar'."

Ouve-se falar que a "corrupção é o pior inimigo do Brasil". Ulysses Guimarães, ex-deputado, certa vez afirmou que "corrupção é o cupim da república". É necessário um olhar atento ao alcance dessas frases, para que não sejamos vítimas de uma ideologia que, por meio de confusões designativas e denotativas, nos faz acreditar que a "corrupção", pura e simplesmente, é o que impede o "desenvolvimento" do Brasil e que, por causa dela, os brasileiros não têm acesso à educação e à saúde públicas de qualidade, por exemplo.


Existe certa confusão acerca de que condutas possam ser qualificadas como "corrupção" (chama-se isso de confusão designativa - o que é, até certo ponto, normal dentro da política). O consenso que se pode notar é o de que, ao termo "corrupção", se relacionam as condutas que, de uma forma ou de outra, violam as regras do "jogo social" - regras essas que não precisam estar necessariamente ligadas a sanções de ordem jurídico-positiva. Isso porque se reconhecem como corruptas tanto as ações de desviar dinheiro público (que é um crime, logo previsto em lei) quanto de furar a fila do banco (que não é crime, mas apenas uma conduta "anti-ética"). "Corrupção", portanto, é um termo que possui um forte (senão exclusivo) cunho ético, sentimental: não precisa estar escrito em lugar nenhum para que se sinta que determinada atitude possa ser considerada "corrupta".

Quando a gente fala que alguém fez algo corrupto, queremos dizer, em geral, que aquela pessoa quis tirar vantagem de alguém, trapaceou, se deu bem às custas de outrem, porque é um espertalhão. Mesmo porque, por outro lado, a agressão física ou o homicídio, por exemplo, geralmente não são considerados atos de corrupção; da mesma forma, um incompetente/ingênuo não é um corrupto, porque não passa de um incapaz - sequer de enganar os outros.

Dito isso, fica claro que a existência da corrupção na sociedade não pode ser considerada coisa anormal, assim como a existência do crime. Violações dessa natureza sempre existiram e sempre existirão na sociedade, independente de qual seja. Então, contra qual corrupção as pessoas estão lutando quando se mobilizam, como se mobilizaram atualmente, em pacíficas passeatas e comícios (vide texto do Samuel) que "tomaram o Brasil inteiro nos últimos dias"?

O que se pode notar é um sentimento comum de que "não é possível que com tantos impostos pagos tão pouco se faça". A lógica popular aparece bem clara no seguinte silogismo: 1. Pagamos muitos impostos; 2. Ora, não achamos que os investimentos públicos são proporcionais aos impostos que pagamos; 3. Logo, algo errado está sendo feito por aqueles que administram nossos impostos, ou porque são incompetentes, ou porque são corruptos. Daí vem o seguinte raciocínio: ora, se foram espertos o suficiente para ganhar tantos votos e se elegerem, claro que não são incompetentes; logo, são corruptos.

Dessa forma, utilizando-se de tais raciocínios torna-se possível restringir a discussão ao problema da corrupção, deixando para trás uma série de outras variadas - e importantes - discussões políticas: o funcionamento da economia, a origem das desigualdades sociais, as relações entre o público e o privado e por aí vai.

Há um sentimento comum de que "é impossível que o sistema esteja errado, as pessoas é que são corruptas e, por isso, causam a ineficácia do sistema"; e de que "não há opção, o comunismo já faliu, nos resta o capitalismo" e que, por isso, "devemos nos esforçar para que o capitalismo dê certo". Daí porque sequer nos permitimos pensar sobre a relação entre a concentração de riquezas privadas e a miséria. Também não nos damos conta do poder detido pelas grandes empresas privadas - poder que, já se sabe há muito, torna submisso inclusive o próprio poder público na tomada de decisões.

A questão da corrupção, portanto, surge muito mais como uma cortina de fumaça que encobre as dificuldades estruturais do próprio sistema do que aquilo que impede que o sistema funcione "como deveria funcionar".

Corrupção é um conceito difuso: prova disso é que sequer sabemos, ao certo, quando e onde ela incide na administração pública, e geralmente não buscamos dados confiáveis acerca do patrimônio público disponível e das possibilidades/limitações em sua aplicação. Não basta afirmar que "pagamos trilhões de impostos", se não sabemos ao certo a real dimensão das possibilidades de investimento desse dinheiro, tomando em conta as despesas da própria máquina burocrática e as flutuações de valor que não dependem só do poder público.

Deixar a questão da corrupção dominar a discussão política é aceitar que essa cortina de fumaça nos force a ver um inimigo distante em detrimento da percepção dos inimigos próximos - que não são só as atitudes dos Prefeitos ou dos vereadores, mas podem também ser, por exemplo, os monopólios financeiros encarnados nas grandes empresas privadas que existem em todas as cidades.

Assim, acreditamos ser necessário repensar o próprio sistema econômico e suas falhas estruturais, não deixando que o problema da corrupção passe a ser o protagonista da discussão. Os problemas éticos por nós vividos podem muito bem ser uma consequência do próprio sistema e, apenas de uma maneira reflexa, das atitudes das pessoas.

Cíntia Tirloni Zandoná e Luís Henrique Kohl Camargo - GEDIS


quarta-feira, 24 de julho de 2013

As perspectivas profissionais da docência jurídica




A docência jurídica é sem dúvida uma das profissões que mais tem se expandido. Em razão do grande número de cursos direito, tem sido abertos um número expressivo de postos de trabalho. Segundo dados da ABEDI (Associação Brasileira de Ensino de Direito) são mais de 650 mil alunos (o curso de Direito é o segundo no país em número de matrículas), o que resulta em aproximadamente 100 mil bacharéis formados anualmente.


Os números indicam a proporção da força de trabalho docente existente no mundo jurídico. Essa constatação poderia ensejar o entendimento de ser o professor de Direito alguém bem remunerado. Todavia, o grande número de cursos de Direito vem combinado com um outro fator: o magistério é a categoria profissional do Direito que mais mal remunera seus membros (se compararmos com qualquer outra profissão que exija diploma em Direito, os salários dos professores são os mais baixos).

A associação desses fatores tem gerado um paradoxo no ensino jurídico. Por um lado há aqueles que faturam muito com a difusão de conhecimentos jurídicos e, de outro, uma grande leva de professores que encontram, nas faculdades, uma mera alternativa de trabalho (muitos optam pela docência jurídica após fracassar na tentativa de ingresso em outras carreiras).

É, assim, comum o ingresso na docência jurídica de bacharéis que não obtiveram êxito em profissões de maior prestígio. Afinal, há oferta de aulas por salários baixos para o Direito, mas ainda razoáveis se comparados a outras atividades (comparando com a média nacional, o valor de R$ 400,00 para quatro horas de aula é um bom salário!).

Ironicamente, percebe-se que as faculdades de Direito, em maior ou menor número, tem sempre um albergue para os frustrados do Direito.
Cabe lembrar que não estamos falando da totalidade do magistério, mas sim de uma proporção crescente. Existem alunos que teriam interesse e potencial para a docência, porém deixam o ambiente acadêmico como segunda opção (quando adentram em carreira de maior segurança financeira, dedicam-se e apenas parcialmente à academia).


O processo de depreciação da docência é um fenômeno que atinge tanto as instituições privadas quanto as públicas. Basta ver que o pior salário do Poder Executivo é o dos professores da rede federal (Jornal Folha de São Paulo, de 02.07.2012). Cerca de um quarto das vagas para docentes de estabelecimentos de ensino federais de São Paulo não são preenchidas. Este número reflete o desânimo daqueles que aplicaram no mínimo seis anos de suas vidas na obtenção de titulação (mestre ou doutor), na ampla maioria das vezes com recursos próprios e com sacrifício financeiro, para depois constatarem que o salário oferecido é muitas vezes inferior ao de um serventuário da justiça de nível médio.

Desse modo, na opção pelo magistério jurídico, tem predominado duas situações: a já mencionada daqueles que, após o insucesso em outras incursões profissionais, conseguem "umas aulinhas" e, a daqueles que obtém sucesso em outras profissões e fazem da docência uma atividade secundária motivada por razões existenciais ou porque útil para alavancar suas finanças explorando grandes nichos econômicos do ensino jurídico (como a preparação para concursos públicos e cursos de atualização).

Em suma: o número de ingressantes no magistério jurídico que o vêem como vocação cultivada deste cedo, para o qual se preparam durante longo tempo e que o exercem como opção exclusiva é cada vez menor.

Este cenário de desalento ainda mais se agrava quando aqueles que fazem a opção pelo magistério depois de sucessivos fracassos profissionais se engalfinham em disciplinas propedêuticas, partindo do pressuposto de que estas são "menos importantes", são "as rejeitadas pelos alunos", "são uma viagem" ou - um argumento comum e o pior de todos - "não são direito", ou seja, não fazem parte da ciência jurídica.

O que ocorre é que essas disciplinas exigem uma capacidade maior de abstração. Exigem "viagens" com escalas para fundamentar a prática cotidiana e possibilitar a conscientização da ação dos juristas, evitando a mera repetição irrefletida de uma atuação. O descaso para com estas disciplinas tem consequências terríveis!

Diante disso, torna-se urgente pensar o lugar do professor no quadro das profissões jurídicas, olhar para a formação de quadros e promover e valorizar a docência, sob pena de se fazer muito "ensino" jurídico, mas com pouca (ou nenhuma) qualidade.


Samuel Mânica Radaelli - GEDIS
 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A direita no armário



"Agora, nega também a diferença entre esquerda e
direita, sustentando uma 'ordem política' em que não
se pode levantar bandeiras nem defender ideias. Assim,
dá um caráter natural aos seus interesses, no intuito de
que o pobre vá às ruas para defender o rico."

A direita brasileira tem causado espanto por sua preocupação em enrustir-se, negando justamente a diferença entre esquerda e direita. Ao negar essa diferença não assume, de forma franca, a sua prática e a dos seus militantes. Percebe-se que a direita brasileira sucessivamente vem negando, também, uma série de outras diferenças, nesta ordem: 1) entre ricos e pobres; 2) entre patrões e empregados; 3) entre brancos, negros e índios; 4) entre homem e mulher.
Agora, nega também a diferença entre esquerda e direita, sustentando uma “ordem política” em que não se pode levantar bandeiras nem defender ideias. Assim, dá um caráter natural aos seus interesses, no intuito de que o pobre vá às ruas para defender o rico.
Essa atuação camaleônica visa universalizar seus interesses, criando um jogo de subalternidade e imitação à medida que estabelece sua ordem como autêntica, afirmando que todos os que são bons podem atingir o poder econômico e político e por isso todos devem defendê-la; por conta disso tem-se a figura patética do sujeito que ganha R$ 10mil por mês e se sente sócio do Bill Gates, e por tal razão pensa em defender interesses comuns a ambos.
É preciso prevenção em relação ao neoconservadorismo expresso na atitude de criticar todos os políticos e votar sempre nos mesmos.
A atitude dissimuladora das forças conservadoras no Brasil pode revelar aspectos positivos como a fragilidade argumentativa na defesa de suas posições, contudo, embora o fato de que majoritariamente existe constrangimento em admitir pertencer à direita – o que reflete a pouca credibilidade do conservadorismo –, isso não é devido ao esgotamento de sua posição social.
Diante do desgaste de sua imagem a direita muda de “rótulo”, buscando possibilitar que seus agentes públicos possam atuar advogando interesses burgueses sob o manto da imparcialidade política, como forma de ocultar e absolver sua prática. A burguesia se sustenta porque consegue universalizar seus valores: para isso, não possui apegos identidários, praticando a reinvenção constante de sua imagem.
A direita está no armário. O problema é que ela se “transveste” da democracia e da neutralidade política.

Samuel Mânica Radaelli – GEDIS

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Protesto “apoiado” pelo patrão não é protesto: no máximo, um comício!

                
A onda de protestos iniciada pelo movimento passe livre, visando melhorias no transporte – e que, devido, em parte, à repressão do governo Paulista, ganhou projeção e tornou-se um movimento nacional – traz consigo a reflexão sobre qual o rumo do próprio movimento, tendo em vista que o seu efeito mimético fez com que vários anseios fossem projetados para as ruas.
Nesse mar de insatisfação e de questionamento do poder o conservadorismo também põe as “mangas de fora”, com o apoio da mídia – desacreditada por seu apoio inicial à repressão: ambos tentam dar outro rumo às manifestações, direcionando-a para a vilania disfarçada das suas velhas pautas.
Suas atitudes são:
1) Tentativas de direcionar a manifestação para pautas mais genéricas, como “contra a corrupção”, “por Brasil melhor”, ou tema secundários como  “PEC 37”;
2) Edição de imagens tentando aliviar para a Globo e para a empresas de transportes;
3) Tentativas claras de se aproveitar disso para fins eleitorais;
4) Inserir vândalos entre manifestantes, na mesma linha os atos de destruição praticados pela própria polícia, os quais são  ressaltados pela imprensa como feitos pelos  manifestantes;
5) Inclusão de temas que interessam, principalmente, às elites.
Diante das manifestações regionais capitaneadas por setores de uma burguesia aprendiz, é preciso perguntar: estão eles dispostos a criticar os lucros das empresas de transporte em nome de um transporte coletivo de qualidade?
Neste quadro é necessário precaução, lembrando a velha máxima da política: “empresário não faz movimento popular, faz movimento eleitoral”. Outra prática comum é pôr os empregados nas ruas para defender os seus interesses disfarçados de reivindicação popular.


Samuel Mânica Radaelli - GEDIS  

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A direita é apartidária e não anda de ônibus!



Os rumos deste fantástico movimento de protesto que varre o país começam a pender para a direita. No impulso dos protestos populares, movimentos nefastos tendem a querer pegar carona, visando fortalecer políticos que só agora, devido a ameaça do ostracismo, tornaram-se arautos da moralidade pública, inserindo bandeiras que não beneficiam a população, tas quais a do “Acorda Brasil” e algumas que querem diminuir os impostos dos mais ricos.
O espírito destas manifestações é contra a apropriação de bens públicos por empresas privadas através da COPA, mas é ainda a luta por cidades melhores para os pobres em seu direito de ir-e-vir, luta expressa no movimento passe-livre. Um aspecto interessante é a luta contra a mentira das grandes empresas de comunicação (que maravilha a violência contra a Globo! Verdadeiro ato de legítima defesa política!). Portanto, cuidado com os aproveitadores, especialmente aqui em Santa Catarina, onde há poucos dias aconteceu a greve dos profissionais do transporte em Florianópolis e a imprensa e a opinião pública ficou a favor das empresas de transporte e do prefeito. Por que em Florianópolis ninguém foi às ruas na semana passada? Por que não manifestações contra RBS e RIC?
Este é um movimento novo livre de partidos e de instituições velhas, mas não é livre de ideologias, por isso, os manifestantes devem lembrar que Pior do que está pode ficar. É preciso lutar pelos direitos dos pobres.
E cuidado: se você está nas ruas e não sabe o que quer, a direita sabe!
           

Samuel Mânica Radaelli - GEDIS