sexta-feira, 18 de agosto de 2017



UM BRINDE AO INDESPERTO

Ontem à noite, ele não pôde dormir. A insônia, que se tornara uma amiga íntima nos últimos tempos, lhe fizera companhia até mais tarde. Abriram uma garrafa de vinho e engataram uma conversa sobre a escola, seu ambiente de trabalho. Contou-lhe a rotina. Falta de materiais para trabalhar. Falta de estrutura física decente para abrigar os estudantes. Salário sem reajustes. Reformas ‘temerosas’. Desanimou. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações e desistiu da ideia.
Engataram uma conversa sobre teoria da conspiração e sobre a morte de um delegado que investigava a morte de um ministro. Duas mortes envoltas em mistério. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações e desistiu da ideia.
Engataram uma conversa sobre as próximas eleições e os possíveis candidatos de uma lista que sequer existe. Quis argumentar sobre a importância de lutar por eleições diretas no exato momento, mas lembrou-se do último protesto que acontecera na região e do minguado número de participantes. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações e desistiu da ideia.
Engataram uma conversa sobre um sujeito queridinho de uma galera conservadora, sedenta por heróis de estimação. Sujeito esse, ícone de xenofobia, misoginia e homofobia. A empatia por quem sofre diariamente o entristeceu. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações, mas, desta vez, não desistiu da ideia. Decidiu encarar suas angústias de frente.
Engataram uma conversa sobre a diversidade religiosa e o punhado de gente que não se identifica com religião alguma. Ele próprio já não se identificava com nenhum tipo de esperança de sociedade utópica para a humanidade. Lembrou-se dos sujeitos que definem padrões de normalidade às vidas alheias. Refletiu sobre o ‘conceito’ de normalidade. O ‘conceito’ de personalidade também lhe pareceu um asqueroso conjunto de rótulos, colecionados ao longo das vidas que buscam um sentido à existência. Utilizado para justificar arrogância e destilar ódio, camuflado em piadas e opiniões.
Engataram uma conversa sobre o absurdo da existência. Lembrou-se de suas tarefas diárias. Precisava ter dormido. Não obstante reconheça a falta de sentido dessas, continuava executando-as com resignação. A essa altura, a insônia já tomara seu último gole de vinho. Observara o rosto angustiado daquele indivíduo solitário, altruísta e conscientemente destituído de qualquer verdade. Amanhecia. Ela despedira-se carinhosamente, presumindo um retorno na noite seguinte.

Beatriz Soares, professora


ELA

Por quanto à espera
de noites em cumplicidade.
Destratos e querelas
entre eu e a verdade.
Sobre uma ontologia utópica
de entremeios e sempre à volta
de intangível serenidade.

A taça de vinho medeia
reflexos e reflexão
sobre movimentos agudos
e tanta corrupção.
Mesmo que nosso intento
não fosse inteiriço lamento
mudávamos de direção.

Ela
Insistente e atrevida
me instigava a pensar
sobre abusos e modos
de nosso ser e estar.
Dava-me chances intensas
a fio de horas imensas
e prestes a transformar.

Ela
Abraçava-me em ternura
em aparente ninar.
Contanto que não findasse
aquele turbilhão de idear.
E ao contrário que pensava
Ao invés de noite clara
Clarificou meu olhar.

Ela
De tanto
e tudo sobre tanto
me fez fugir de um tratar.
Tentei, tentei tanto
Mas como não lamentar?
Deste estado de coisas.
Destas coisas em estado
de nos abocanhar.

Aquela noite foi Ela
que me transformou desnudo.
do branco ao tinto rubi
letargia em pensar astuto.
E apesar da despedida
que se pôs em desmedida
prometeu voltar contudo.

Fabio Soares, Professor




Publicados em 09 de junho na Coluna Pimenteiro do Diário Data X

EMBARQUE IMEDIATO

Embarque em bela arte.
Destarte de mil encantos.
Permita-se ir à Marte
e não só de vez em quando.
Vá. Veja. Sinta. Pense
Ouça. Goze. Ria. Repense
E de graça melhor, portanto.

Significar e entender:
as artes e seus desencantos.
Valorizar e reconhecer:
artistas sem entretantos.
De olho na alienação
de domingo vendo o Faustão
e outros tantos sacrossantos.

O que me consome?
E o que consumo?
Respostas em minhas escolhas
Perguntas que não assumo.
É melhor ir ao estádio
Entreter-me com espetáculo
de dinâmicas que já presumo.

Mudanças são necessárias
em vias de transformação.
Podem começar na escola:
como lugar de compreensão
da história e sua importância
vivendo em esperança
de promover valorização.

Embarque na criatividade
sem desembarque, então.
Expressão e sensibilidade
em sua vida comporão
aquilo que mais precisamos:
Isso é educação!

Fabio Soares da Costa - professor




QUANTO CUSTA OU É DE GRAÇA?

Quanto custa? Ou é de graça?
Tá muito caro, mas... Se for de graça, não quero!
 A arte é uma forma de expressão de grande poder sensibilizador. Ao apreciarmos algo artístico, dificilmente não somos tocados por emoções que nos permitem transcender a um nível sentimental acima do que habitualmente nos encontramos.
A sociedade, em especial os jovens, carece compreender melhor o significado de arte, ser oportunizada a entendê-la, reconhecê-la e apreciá-la como artista ou como expectador. Entendê-la para que possa interessar-se por ela, reconhecê-la para valorizá-la como expressão de grande valor histórico para a humanidade e, apreciá-la para exprimir seus mais diversos sentimentos. A partir desse contexto podemos justificar e reclamar o acesso a ela. Em um país, onde uma considerável parte da população mostra-se alienada e refém da mídia é até compreensível que algumas pessoas ignorem , neguem e não se identifiquem com produções verdadeiramente artísticas.
Isso se evidencia quando são oferecidas atrações acessíveis e mesmo assim a quantidade de público que comparece é frustrante. Posso citar como exemplo o Festival Nacional de Teatro de Chapecó que aconteceu na semana de 22 a 28 de maio, oportunizando a apreciação de arte de qualidade e gratuita a toda região. Não é difícil vermos pessoas reclamando sobre a acessibilidade às atrações artísticas, alegando elitização, mas quando há não comparecem. Porém, faça chuva ou faça sol, custe o que custar, seu lugar no estádio de futebol está garantido.
Esse processo de compreensão das expressões artísticas pode começar na escola. Talvez, no atual momento, seja o único caminho. É preciso aproximar os alunos da arte de uma forma que possam compreender sua importância histórica e valorizá-la como uma forma de expressão que toca o artista e o expectador. Sendo a escola, essencial na construção do ser que se reconhece como transformador da sociedade é importante que o ensino da arte seja focado no desenvolvimento da expressividade, da criatividade e da sensibilidade. Conteúdos “engessados” e focados na técnica tendem a distanciar os alunos das criações verdadeiramente artísticas, transformando-os em meros clientes da indústria cultural, ou seja, baladas lotadas e teatros vazios.

Wagner Kinappe – professor e músico



Publicados em 02 de junho na Coluna Pimenteiro do Diário Data X

sexta-feira, 26 de maio de 2017




HORÓSCOPO DE TODOS OS DIAS EM UM BRASIL DE TEMER



ÁRIES – 21/3 A 20/4
A Lua unida a Plutão revela grandes incertezas para o futuro. Desconfie de reformas que prometem melhorar sua vida. Aumento de trabalho sem a devida remuneração é uma grande possibilidade. A ascendência de Plutão com Cérbero ameaçam o sossego na melhor idade. A sua cor é Terra cotta.

TOURO – 21/4 a 20/5
Plutão em azáfama com Vênus escancara que Minotauro tem fome da carne laboral. Muito cuidado com as propagandas fabulosas sobre modernização. Salários menores e jornada picada são apostas garantidas. Sua cor é Carmesin.

GÊMEOS – 21/5 a 20/6
Plutão em aproximação com Marte revela que Deimos e Fobos planejam retirar com mesóclises direitos que lhe são fundamentais. Com seus capachos, na surdina, tramam fazer-te dominado. Aterrorizam os pobres com projetos espúrios. Sua cor é Persimmon.

CÂNCER – 21/6 a 22/7
Plutão em dissensão com Netuno aponta um neoplasma amorfo crescente que subjugar-te-á caso não seja contido. Esteja atento ao abcesso empresarial que manuseia marionetes parlamentares contra os seus direitos. Sua cor é Pink.

LEÃO – 22/7 a 22/8
Mercúrio em rápida passagem por Hélio articula com seus lacaios um rápido conclame de peças marcadas. Fique atento às sessões parlamentares que já estão discutindo mudanças em seu trabalho sem que você nem mesmo saiba o conteúdo dos debates. Sua cor é Ruby.

VIRGEM – 23/8 a 22/9
Júpiter em colóquio com Gaia denuncia que Diana está sendo ludibriada por Arimã, que pretende através desta impor reformas que o farão conhecer as Moiras. Não se deixe seduzir pela flexibilização da jornada, flexibilizado estará o seu salário. Sua cor é Puce.

LIBRA – 23/9 a 22/10
Saturno em dialética com Hélio delata que Têmis, que do Olimpo observa as manobras, que de tão longe da plebe está, mal vê ou vê o que quer. Desconfie dos entusiastas do Aquiles da Cidade do Sorriso, seu calcanhar é maior do que se imagina. Sua cor é Rust.
ESCORPIÃO – 23/10 a 21/11
Marte privado de Vênus, trama uma grande maldade para quem precisa se aposentar na velhice. Esteja atento à publicidade que quer te convencer de que tamanho mal é para o seu bem. Sua cor é Magenta.

SAGITÁRIO – 22/11 a 21/12
Mercúrio distante de Plutão afirma que o Centauro está furioso com os partidos pangarés que de modo hipócrita enganam os trabalhadores em favor de seus donos. Fique atento aos discursos que dizem que as reformas não têm nada a ver com as siglas partidárias. Sua cor é Fúcsia.

CAPRICÓRNIO – 22/12 a 20/1
Hélio iluminando Gaia revela que Pã, nas pontas dos cascos, articula com Arimã uma orgia com os direitos trabalhistas. Fique atento aos pândegos, cidadãos de bem, amáveis, fiéis e companheiros, esses adoram dar rasteiras e receber votos. Por vezes tem pré-disposição a desprezar o ordenamento constitucional. Sua cor é Sangria.

AQUÁRIO – 21/1 a 19/2
Júpiter orbitando Hélio declara que as sereias, com seu canto, entorpecem os navegantes. Junte-se às nereidas que hoje saem às ruas. Para combater as reformas é preciso mais determinação e solidariedade de classe para pôr fim aos desmandos de Netuno. Sua cor é Violeta.

PEIXES – 20/2 a 20/3
Hélio radiante espera grandes mudanças em Gaia. Junte-se à massa de todas as cores que não se ajoelha ao temerário poder de um usurpador. Como as nereidas, exproprie o tridente de Netuno, e com esse vá pra rua hoje! Sua liberdade precisa ser conquistada! Lutar sempre, Temer Jamais! Sua cor é o Prisma.


Bruno Picoli e Jean Bacca, Professores


O REI ESTÁ NU*


Era uma vez, num país não muito distante, uma chefe de Estado com dificuldades para negociar com outros políticos importantes e influentes de seu pais.
Naqueles tempos nebulosos, surgiram, com as mais variadas máscaras, pessoas autointituladas guardiões da verdade e do bem. Um era pastor que sempre esbravejava ao falar; outro fazia filmes adultos quando era mais moço; havia um que usava toga e martelo em uma capital do Sul daquele pobre país; outro ainda era um ex-militar obtuso e oportunista... E ainda uma outra que era advogada, professora, e que afirmava que quando tinha 11 anos jurou a um chefe de Estado moribundo que zelaria por aquele país - esses profetas da verdade começam cedo! Um poderoso clã se uniu a esse grupo e, como controlava as comunicações daquele país, deixava todo mundo informado das incríveis descobertas dos guardiões da verdade. A verdade descoberta por eles era acessível apenas às pessoas de um certo nível. Segundo eles, os menos inteligentes não podiam ver...
A grande revelação é que eram todos corruptos, a chefe de Estado e sua agremiação política. Só não via quem não tinha a inteligência suficiente para ver. Muitos dos que passaram a ver o traje criminoso da chefe de Estado atribuíam a dificuldade em enxergar dos seus apoiadores ao regime alimentar: sanduíche de mortadela. Um grupo de empreendedores, visionários e honestos, conforme diziam os profetas, formado apenas por não comedores de sanduíche de embutido suíno, ofereceu um totem amarelo, um deus da guerra emborrachado, para o qual eram dirigidos os hinos de louvor e os versos decorados e coreografados. Todos o carregavam consigo. Cassada a chefe de Estado, foi empossado outro pelos guardiões. Esse outro era homem probo, só não via quem ainda estava preso à dieta de embutidos e farinha, era o que se dizia...
O véu da corrupção, jogado sobre a chefe de Estado e seus aliados pelos guardiões da verdade, liberava que os grandes corruptos agissem como queriam. Já sobre aqueles que matam antes de delatar, foi posto um véu de boas intenções, só não via quem não tinha a inteligência necessária. Tal qual ratazanas esfomeadas tinham pressa. Era preciso oferecer o sacrifício ao deus-pato-amarelo, tão esfomeado quanto àquelas.
Em pouco tempo aqueles que saíram às ruas contra a chefe de Estado já não viam mais a roupa de honestidade que o novo ocupante da cadeira e seus apoiadores, atucanadamente trajavam: “mas como admitir isso? E a vergonha, meu Deus?! Vão dizer que virei mortadela! Ou então, vão dizer que eu estava errado, que fui enganado, que vergonha!”. Ninguém mais via o véu, entretanto ninguém deles ousava dizer, bradar, a plenos pulmões!
Até que um dia, um fabricante de mortadela...
Bruno Antonio Picoli - Professor


O REI ESTÁ NU*

Que podre era aquele reino!
Cheio de desaventuranças.
Quem? A chefe de Estado
agremiada e sem alianças.
Corrupta até o talo!
Malfadada e em retalho.
Desprovida de esperanças.

Até que a dádiva surge:
Os guardiões da verdade.
Travestidos e mascarados,
personificando a sanidade.
Que pena: pois só inteligentes,
visionários um tanto regentes
sucumbem em perplexidade.

Hino de louvor
e verso declarado
não foi suficiente
pra manter anonimato.
E eis que o novo ocupante
temerário e ultrajante
vai perder o seu cajado.

O novo reino anunciado:
probo e iluminado.
não percebia que de máscaras
mostra-se apenas um lado
E que a verdade não seja dita
pois a mentira é atrevida
e pertence até aos calados.

Fábio Soares, Professor



* Publicados na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Diário Data X de 26 de maio de 2017
Há muito a TEMER*

É difícil escrever em um momento em que deveríamos gritar, mas ouço apenas um silêncio ensurdecedor. Sinto-me indignada, com raiva, assustada e só. Ao olhar em volta não vejo nada, nada além de rotina. Em meio ao caos, percebo uma ordem desesperadora. Indiferença, conformidade, e cada um em seu lugar. No lugar em que se está condenado a estar, seja por sua cor, gênero, classe social ou outras características que socialmente determinam onde devemos estar, o que devemos fazer e quem devemos ser. Há quem chame de vocação, há quem diga que se pode escolher o que se quer ser, mesmo que esta escolha seja limitada a certas possibilidades.
Mas ouso questionar, é uma escolha consciente do sujeito o lugar que ocupa ou este lugar que se ocupa no mundo é definido por variáveis que vão além de nós, de forma que muitas vezes, não permite que nos posicionemos, assim o que nos resta é aceitar. Somos estimulados à aceitação e conformidade o tempo todo, é um discurso comum. E imersos neste estado de conformidade a ficção satisfaz nossas relações, bombas calóricas satisfazem nosso paladar, mentiras satisfazem nossa audição. O que não nos afeta diretamente não nos interessa. E o que afeta? Pouco podemos fazer em relação a isso, então porque gastar energia, com o que pode ser ignorado e aceito?
Porém, em contrapartida, o que podemos fazer? Quando conscientes e sentindo necessidade de resistir, somos encurralados pela rotina diária e pelo trabalho. Não nos resta tempo para lutar, não nos resta tempo para resistir, não nos resta tempo para discutir, não nos resta tempo para ter voz. Precisamos sair de nossa zona de conforto, e perceber que para que algo aconteça é preciso agir. Sair da ilusão de que alguém vai fazer o que cabe a qualquer um, pois do contrário continuaremos culpando todo mundo, por algo que ninguém fez.

Monique Fernanda dos Santos


* Publicado na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Diário Data X de 19 de maio de 2017
MATERNIDADE (DES)CONSTRUÍDA*

Parafraseando Simone de Beauvoir, não se nasce mãe, torna-se mãe. O tal instinto materno não existe, é introjetado desde o primeiro presente que uma menina geralmente ganha: boneca. O que há é o mito da mulher como máquina reprodutora de bebês e uma construção social em torno disso. Nem todas cultivam na vida adulta o sonho induzido na infância de ser mãe. Há aquelas que não almejavam a maternidade nem quando pequenas. E isso, de modo algum, significa não gostar de criança! Por vezes, não querer ter filhos é uma decisão altruísta.
A mulher é idealizada pela sociedade já no ventre materno: ‘fure a orelha!’, ‘use rosa!’, ‘brinque de casinha!’, ‘sente direito!’, ‘isso não é coisa de menina!’, ‘se depile!’, ‘essa saia tá muito curta!’, ‘batom vermelho tá pedindo!’, ‘tem que saber cozinhar!’, ‘case!’, ‘seja mãe!’. Aprendemos desde cedo as ‘boas maneiras’ para, no futuro, sermos mães e esposas convenientes. Ensinam-nos rapidamente que para sermos completas precisamos de filhos (de preferência mais que um) e um companheiro ao nosso lado. A própria referência à menina como princesa, comumente utilizada, sugere fragilidade e necessidade da figura masculina para proteger e sustentar. Sai o pai, entra o marido.
A única característica biológica que difere mulher e homem nos cuidados de uma criança é a amamentação no peito. Trocar fralda, dar comida ou ir à reunião de pais na escola não demanda nenhum outro atributo biológico especial. Porém, são raros os pais que, de fato, são presentes no dia a dia de suas crias. O patriarcado ainda é tão forte entre nós que a ideia do pai-ajudante-de-mãe é aceita naturalmente. Se ele cumpre suas responsabilidades enquanto pai, é chamado de paizão. E a mãe de sortuda! Quando na verdade está tão somente exercendo a paternidade, dividindo a criação dos filhos com a genitora.
Não é necessário ser mãe para saber que a fantasia de maternidade romântica, perfeita e maravilhosa, que toda mulher deveria vivenciar, é uma falácia. Não precisa ser mãe para se sentir completa e realizada. Escolher não ser mãe é um direito reprodutivo e isso não a minimiza ou a deixa menos mulher. Respeitemos! A maternidade deve ser uma escolha, não um fardo do qual não se pode escapar. Mãe sente, é igualmente gente. Parabéns, e não só neste domingo, às mães que também choram e reclamam. Que carregam a dupla ou tripla jornada. Que se sentem sozinhas, cansadas, inseguras e, às vezes, se arrependem e têm vontade de chutar o balde. Que possuem sonhos, desejos e vontades próprias. Dia das mães é mais uma data inventada pela sociedade de consumo, que vende a romantização da maternidade para gerar lucro.

Regina Miliorança



COMPULSÓRIA MÃE*

Mãe é Mãe né pai!
Como assim pensamos?

Introjetados e persuadidos
pela ilusória notoriedade
que a maternidade representa
em nossa sociedade.
É quase uma obrigação
ter filhos de montão:
compulsória maternidade.

Ainda lembro minha vó -
21 dos 14 vivos.
Um ano pra cada um
de longos partos repetidos.
Nem tudo foi alegria
pois a obrigação se fazia
em atender o vovô atrevido!

Lembro também da mamãe –
5 vivos e ela encantou
Deixou seu legado materno
que sempre vontade narrou.
Vil construção patriarcal
Que em encontro dominical
Tanto se consolidou.

Pra muitos: um dom divino.
Pra outras: possível questão.
O importante é compreender
o que se faz em construção.
Seja a mãe reprodutora
ou a escolha emancipadora,
ser Mãe é sempre opção.

Professor Fábio Soares

* Publicados na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Diário Data X de 12 de maio de 2017
O OUTRO LADO DA CIDADE*

Vi ontem uma menina que debatendo-se de um lado para outro, tentava olhar as pessoas e não conseguia...nem olhava pra ela mesma...só corria! E nessa corrida, vi passarem dias e anos de sua vida por entre meus dedos e não consegui reter a ideia em parágrafos. Tentei segurá-la e dizer para!!! Mas ela já fugia e fugi também eu.
Vi hoje alguém que se rolava na cama sem conseguir dormir. Tentei acalentar, mas os braços pendiam cansados da própria insônia...e eu dormi! Dormi enquanto a vida corria sem dar lugar ao sonho. No sonho sem sono,
os que dormiam lastimavam a falta dos braços que não acalentaram.
Vi uma criança abusada...sem ter noção do trauma, desenvolveu a agressividade. Ninguém conseguia saciar sua sede de vingança e por isso seus olhos verdes faiscavam sem noção. Qualquer motivo virava agressão e para tal não havia limites. E eu intervi. E seu olhar mesclava alegria e dor.
Qual o limite do amor da mãe nessa história? Deveria ser de força...mas virou paixão pelo agressor e ela soltou-se da filha e a deixou ir...pra onde? Pouco importava a distância, desde que fosse pra longe dos olhos do Lobo Bobo e seu olhar guloso. A mãe quis ser a chapeuzinho...nem viu que a própria filha havia entrado no bosque...com o lobo.
Vi um menino que chorava porque apanhou sem bater graças ao código de honra da luta que treinava...mas, para ele não sobrou honra nenhuma. Os que o consolavam insistiam em declarar: você só apanhou, não bateu. E ele engolia seu orgulho ferido com muitas lágrimas de dor e humilhação. Disse que não queria colocar a família no meio, mas ela veio e prostrou-se em frente ao colégio para a hora da vingança. Ela não ocorreu. A polícia chegou. O menino tem 11 anos.
Vi a professora acuada em um canto da sala enquanto a tempestade de vozes gritadas ecoava pela sala...raios, trovões e vento...forte! enquanto o temporal ocorria, a professora ensinava... Português ou Matemática? Não havia como identificar, nem ela própria sabia...sabia, antes de entrar na sala de aula, depois já nem sabe o que fazia ali.
Vi uma menina que saiu da casa lar pra enfrentar a vida e logo viu que não segurava nem a dela... . Daí, resolveu fazer um filho em si mesma. Começou o seu longo parto aos 12 anos de idade e espalhava sua própria revolta fazendo da barriga um troféu à tristeza. Os outros que a aguentassem porque ela estava grávida... e agarrou a mão da professora e chorou todos as suas lágrimas... queria passar a responsabilidade daquela vida que ela via agora que já era, que ela não queria. Então, começou a beber.
Vi uma criança envolvida em assassinatos...mas era menor de idade e devia frequentar a escola...então, ela foi estudar... Maneiras de agredir ao outro que não tinha tempo de ficar ao seu lado na hora em que ela mais precisava. Ai, resolveu bater. Chamou a atenção da profe...empurrou-a com seus braços, não pra matar, só pra mostrar seu grande drama pessoal! Mas a professora caiu ...Ocorrência!!! A justiça foi “feita” ...mudou de escola. Resolveu-se o “problema”.
Vi uma menina com grande dom pra arte, mas morava numa casa com irmãos, tios , primos, vó,vô...sem mãe, porque a mãe largou os filhos para seguir um novo amor. E eles, os filhos, ficaram...na rua ou na casa do outros. A menina dessa história tinha pai e ele a levou pra casa. A ela e a um novo filho que era filho da mesma mãe...só!
Vi esse mesmo menino guardar drogas na mochila e sair com os olhos alucinados correndo pela sala de aula para conter a adrenalina. Enquanto isso, a rotina escolar corria...gritos, correria e quadro...negro!!!Esta´ politicamente correto? Posso referir-me ao caos como negro já que o quadro é branco? Branco de quê? De limpeza, pois se alguém tenta escrever e ensinar, vem aquele que não enxerga e, por isso mesmo, apaga com seu corpo o que está escrito enquanto a profe tenta escrever.
Vi este menino que não vê, criar teias de aranha em sua cadeira...não tem o que fazer! Não há material e nem vontade, pois construíram pra ele um castelo de longas torres em que ele pode se isolar. E acreditar que não tem destino ...enquanto isso, aproveita o seu laudo sem direito a segunda profe, afinal ele consegue sair da sala sozinho e ir até o lanche e sabe usar o banheiro…por que não consegue ler?
Vi uma sala do fundamental cheia de alunos que não sabem ler, mas passaram pela alfabetização, afinal pra que permanecer no mesmo ano? O número também não muda? Então, eles se amontoam na sala e fingem com indisciplina ou solidão um mundo de letras e símbolos que não lhes pertencem. Então, vi a professora, no meio do tumulto chorar, porque um aluno leu uma frase...inteira! E não “sabia” ler, só copiava o que mandavam. Mas leu. No único minuto de paz que houve na sala. Depois tudo voltou ao “normal”.
Vi a dor em forma de violência, a inocência em forma de lascívia, a revolta transformar-se em risos histéricos embriagados, a decepção travestida em TDH, a esperança guardar-se no fundo dos olhos...quem sabe um dia? Cheguei mais perto da sala e vi lá, no fundo acuado, pares de olhos vibrantes grudando em mim, como se dizendo: continua! E eu continuei...
Enquanto isso, o governo tem uma fórmula para o novo Ensino Médio...

Marcia Brasil Stonoga, Professora, especialista em Estética


INVISIBILIDADES*

Vida olhada,
vivida, partida, juntada.
Mardita, bendita, frustrada,
corrida e de noite enfadada.
Vida olhada,
Ardida, sentida e amada
por quem dela faz a estrada
de uma vida invisibilizada.

A vida, na verdade é...
aquela que dela se faz.
Em fuga dos medos de mim
ou quem sabe de um Alcatraz.
Correndo sem olhar para os lados.
Sem escrever seus lindos parágrafos,
sem sonhos e uma insônia costumaz.

Os braços da vida acalentam
Outras vidas que deles precisam.
Abusos de arbustos florescem
de forma vigente, ardil e paralisam
pequena vida vivida e entorpecem
com raiva e vingança que aparecem
chafurdando os que no sonho acreditam.

E amor? Com amor se paga?
Nem sempre é isso que acontece.
Por vezes, o amor se apaga
dando lugar ao que empobrece
o amor, que em estupor se instala
fazendo do amor luz macabra
e o Lobo que da Chapeuzinho se apetece.

A violência daí surge um tanto
como mágica sem explicação? Não!
É construída e alicerçada em cantos,
gabinetes e a falta de educação
prum” povo que vive de encantos,
promessas, conchavos e de mandos
dos que no poder sempre estão.

Abandono, assassinatos e tráfico.
Gravidez, orfandade e estelionato.
Assaltos, que de tanto, é natural.
A tristeza é o cardápio do prato.
As lágrimas vêm a acompanhar
a realidade de um buffet espetacular
recheado do mais visível anonimato.

Atordoados vivem professores,
trabalhadores e mais um montão.
sem saber e nem o que fazer
envoltos em um turbilhão
de notícias que nos entristecem
ainda mais porque se repetem
noite e dia em corrupção.

E o pior é que uma proposta é feita
por esses que em cheque estão.
Passando-se por redentores,
reformadores da educação.
Dio mio! Acuda-nos em roga
Por que mais esta prova?
Não basta a atual situação?

Fábio Soares da Costa, Professor


* Publicados na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Diário Data X de 05 de maio de 2017

O QUE QUEREM OS CONTRÁRIOS À JUSTIÇA DO TRABALHO?*

De tempos em tempos surge alguma ofensiva contra a Justiça do Trabalho. Advogam aqueles que defendem os mesmos interesses que esse ramo especializado do judiciário gasta muito, mas oferece algo que poderia ser alcançado por outros meios (negociação com entes sindicais ou distribuição direta pelos empresários) e prejudica substancialmente a geração de empregos (a proteção seria excessiva e o empresário “sempre perde”, argumentam). O espaço é pequeno – embora valioso – para a defesa de uma instituição pensada para oferecer resposta célere e adequada constitucionalmente especialmente àqueles destituídos de voz e força (especialmente econômica).
Talvez seja necessário, para reforçar a importância do judiciário trabalhista, salientar a relevância do próprio trabalho na vida do ser humano. Por meio do trabalho, o ser humano modifica a natureza e alcança satisfação material e espiritual, integrando-se a outros (vivência social que humaniza) e dignificando-se, especialmente quando é seu o resultado de seu esforço. Esta importância é diminuída sorrateiramente por uma mídia controlada por grandes grupos econômicos e, também, em espaços geográficos menores, por periódicos e colunistas na maior parte das vezes vinculados ao poder econômico local. Essa vinculação promíscua permite a proliferação de interesses velados, propagados como certos.
Em seu aspecto econômico, é necessário também afirmar que é pelo trabalho – e principalmente pelo emprego – que a grande maioria das pessoas tem acesso a condições materiais mínimas de subsistência. Por fim, em sua vertente jurídica, o trabalho é um direito, garantido pela Constituição, ao lado de educação, saúde, alimentação, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Logo, não faz favor algum quem gera emprego, pois é uma obrigação da sociedade (e do capital) oferecer trabalho!
O trabalho a ser ofertado, por sua vez, deve ser digno ou decente, pois a Constituição exige a valorização social de quem trabalha. Nesse rumo, soa absolutamente falsa a afirmação de que qualquer trabalho é melhor do que nenhum (tese em voga, atualmente), o que – em rigor - justificaria até mesmo o trabalho escravo tradicional. E trabalho decente é o socialmente protegido, com salário suficiente para atender as necessidades familiares e jornada máxima respeitada, com efetiva negociação coletiva (cuja finalidade hoje é desvirtuada) e sem qualquer tipo de discriminação negativa em que exista uma vinculação direta de quem trabalha àquele beneficiado pelo resultado de sua produção (o que não acontece, por exemplo, na famigerada terceirização).
O direito ao trabalho decente pressupõe ainda assegurar sua proteção contra abusos do poder econômico (afinal, as primeiras normas de proteção ao trabalho surgem em virtude da exploração do ser humano por outro ser humano, ocasião em que preponderava a “livre negociação” e, em virtude disso, salários miseráveis para jornadas indecentes...). Aqui, para rechaçar a tese de que a proteção ao trabalho é excessiva, basta questionar: que proteção em excesso é esta que não protege nem mesmo o emprego das pessoas? Sim, a relação de emprego no Brasil não conta com uma efetiva proteção (embora exista uma ordem do constituinte neste sentido, desde 1988, nunca regulamentada). O empresário pode a qualquer tempo, exceto nos restritos casos de estabilidade no emprego, despedir aquele que para ele trabalha, independentemente do tempo de serviço, das condições familiares e da idade, como exemplo.
Por outro lado, de pouca efetividade seria o princípio de valorização social do trabalho se ao trabalhador não se assegurasse o acesso a um meio eficaz e rápido de cobrança de seus direitos. Imprescindível para tanto uma justiça especializada em questões que envolvam o trabalho humano, composta por pessoas com formação específica para a salvaguarda de conquistas históricas dos trabalhadores.
Afirmar que os empregadores sempre perdem nesta justiça é, para medir as palavras, no mínimo temerário. Uma alegação destas exigiria, ao menos daqueles que conhecem os princípios do jornalismo, uma demonstração numérica desta conclusão. Na verdade, cerca de 10% das ações propostas na justiça do trabalho são julgadas totalmente improcedentes (o pedido do empregado é integralmente rejeitado) e, em outro tanto, o pedido é integralmente acolhido. Na maior parte dos casos, portanto, o pedido do empregado é parcialmente acolhido, o que significa dizer que algumas pretensões são atendidas e, outras tantas, rejeitadas.
Os motivos desse acolhimento parcial podem ser explorados em outra oportunidade, mas a título de curiosidade deve ser dito, desde já, que em cerca de 50% dos casos a pretensão envolve verbas rescisórias (ou seja, os empregados perdem o emprego e não recebem nem sequer as verbas finais). Aliás, temos exemplos recentíssimos dessa situação em Xaxim. A justiça do trabalho protege demais ao acolher o direito destas pessoas? Sem a Justiça do Trabalho, os empresários vão entregar o dinheiro devido diretamente aos trabalhadores?
Pensemos!

Régis Trindade de Mello, Professor e Juiz do Trabalho



ADMIRÁVEL GADO NOVO!*

Ôôô, boi

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

Assim,
Zé Ramalho me inspira
a pensar sobre o tratado.
E aqui, sobre a justiça
a transformar-se em retalho
por aqueles a reclamar
que sempre perdem um lugar
na justiça do trabalho.

Vejam só que curioso
santa bondade empresarial
que julga prestar favor
como se direito não fosse tal
E que tal sem a justiça,
pra proteger-nos da movediça
areia proposital?

Trabalho é dignidade
e com decência de ser feito.
Por ele bem receber
pra ficar bem satisfeito.
E a justiça é muito bem-vinda
pra garantir, quando na berlinda
eu trabalhar para um malfazejo.

Fábio Soares da Costa, Professor




* Publicados na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Diário Data X de 28 de abril de 2017