quarta-feira, 1 de março de 2017


SUBMISSÃO OU SUBVERSÃO?*

Notícias de feminicídios decorrentes da misoginia, machismo e cultura do estupro surgem o tempo todo. Informações que, de tão absurdas, parecem distantes da nossa realidade. E os casos daqui, da nossa região? Quantas mulheres sofrem em silêncio, vítimas de violência física, sexual e/ou psicológica? Quem não passou por isso, certamente conhece alguém que sim. Nas rodas de amigos, quando alguém faz um comentário machista, qual a reação das pessoas ali presentes? Qual a tua reação?
O machismo é reproduzido diariamente por pessoas de diferentes gêneros, idades, classes sociais e ideologias políticas, camuflado em piadas, opiniões, atitudes e convicções patriarcais. Interfere negativamente na vida dos homens também, que desde crianças aprendem a reprimir a vaidade, o afeto, o choro. São pressionados a demonstrar força, sucesso profissional e financeiro, manter o papel de ‘provedor’. Alguns descuidam da própria saúde para não por a ‘masculinidade’ em xeque.
Historicamente, o feminismo almeja um novo cenário social, em que a mulher sinta-se livre para decidir sua própria vida. Casar ou não, ter filhos ou não, ‘ser bela, recatada e do lar’ ou não, até mesmo considerar-se ou não feminista, desde que sejam escolhas dela. “Ah, as mulheres reclamam por direitos iguais e se aposentam cinco anos antes, pagam menos para entrar na balada e não são submetidas ao alistamento militar obrigatório.” Sobre essas afirmações contínuas e parvas, consideremos: 1) Muitas mulheres passaram uma vida recebendo salários mais baixos na profissão (comparado ao mesmo tipo de trabalho realizado pelo homem) e, com dupla jornada de trabalho. A conquista deste direito é uma questão de equidade. 2) Quanto ao ingresso da balada, não parece assustadoramente absurdo que mulheres sirvam de iscas para atrair homens para esses lugares? 3) Por que os homens não lutam para que o alistamento militar não seja mais obrigatório, ao invés de sugerir que isso se estenda às mulheres?
“Eu mesma nunca cheguei a entender direito o que quer dizer feminismo, só sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho” (Rebecca West, 1913). Se concordas que mulheres e homens precisam ter os mesmos direitos, que a mulher deve sentir-se livre para fazer suas escolhas... Se também pensas que toda mulher merece ser tratada como ser humano, tu és feminista.

Beatriz Soares - Professora


DÓI, UM TAPINHA NÃO DÓI*

“Vai glamurosa,
cruza os braços no ombrinho
empina bem tua bundinha
que eu te pego gostosinho”

Em todo lugar,
de diferentes formas
vemos e sentimos um olhar
que violenta em amostras
bem grande, por sinal,
desvelando o desigual
mundo fálico de anedotas.

Aí vem uma mulher,
homem, jovem ou idosa
tentar te abrir os olhos
que só enxergam espetaculosa
misoginia, violência e machismo
em cenário de anaforismo
a pensar que só isso importa.

Nos chamam de subversiva
anarquista, sapatão, feminista.
E só pensam que esses termos
criam em nós, expectativa
de ofensa e vã transformação
rendendo-nos ao viril machão
que pensa ter prerrogativa.

Ah! Como somos feministas,
sem perceber, e sem que percebamos.
Almejamos equidade à diferença,
conquista de direitos e outros tantos
definindo como queremos viver,
gozar, nos entreter e conhecer
um novo mundo de encantos.

Fábio Soares. Professor e Mestre em Comunicação

* Publicados na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Jornal Diário Data X de 24 de fevereiro de 2017.

CIDADÃO DE BEM TAMBÉM MATA*

O sujeito autointitula-se cidadão de bem. Reputa-se honesto, correto. Do bem. Louva aqueles que pelo mérito conseguiram uma posição social de prestígio, despreza os que vivem na base. Aos criminosos, pede punição severa. Não se importa com as péssimas condições da cadeia nem com o assaltantezinho amarrado nu no poste, e para ele bandido bem que merece levar uns tabefes da polícia. O cidadão de bem é um moralista, não raro religioso, que prega a eliminação de outros seres humanos caso eles cometam crimes graves.
O cidadão de bem é um cidadão do mal. Ele reprime sua maldade mal resolvida e projeta suas angústias em um lugar socialmente preparado para sofrer.
Exemplo: a pessoa interiorizou que decote é feio. Então não usa decote. Lá no fundo ela queria chamar atenção com seu corpo, como qualquer homem pode fazer. Ela não, ela é mulher, ficaria feio para ela. Ela quer ser uma cidadã de bem. Então sofre, porque reprime seu desejo.
Consequentemente, essa pessoa passa a punir aquela outra pessoa que ousou usar decote. Afinal, se não usar decote é algo "bom", usar decote é algo "mau". Pessoas boas fazem coisas boas, coisas más são feitas por pessoas más. O sujeito conclui, então, que usar decote é coisa de gente "má": safada, vadia, vagabunda etc. E gente má merece ser punida para aprender a virar gente do bem.
O pano de fundo para esse raciocínio é a raiva. A pessoa que sofre por não ser livre tende a projetar naquele que é livre o peso da raiva contida pelo desejo reprimido.
Mas, para manifestar raiva, é preciso antes desumanizar a pessoa alvo, acreditar que ela vale menos por agir de determinada forma. Aí, consegue-se aceitar mais tranquilamente que essa pessoa sofra, sinta dor, seja presa, estuprada, xingada, perca o emprego. Tudo para aprender a ser correta tal qual o cidadão de bem.
Aquele que se autodeclara cidadão de bem é, portanto, um cidadão de bem apenas para consigo mesmo e para com quem é parecido com ele: o resto é degradação moral, anomalia. O cidadão de bem pratica o mal para as pessoas diferentes dele, pois acredita que, dessa forma, um dia essas pessoas se tornarão assim, iguais a ele: boas, probas, ótimas, normais.
Para o cidadão de bem, o outro só é humano se não fizer nada muito grave. Se fizer algo errado, o outro passa a ser um monstro que merece sofrer. Por isso, o cidadão de bem é um cidadão do mal, sem se dar conta do mal que pratica contra o outro.

Luís Henrique Kohl Camargo – Bacharel em Direito e músico.


QUE DECOTE!*

Vi lá longe linda amaragem.
Impecável, de beleza lunar.
Representação de santa imagem
recatada, sem decote e do lar.
Daí, o supliquei tão logo:
tentação, fornicação, mas rogo
não me deixe no mau mergulhar.

Do bem ou mau posso ser,
basta moral minha testar.
Se reprovo o decote, do bem
sou cidadão exemplar.
Só esqueço que ali me reprimo
e, sedento de sê-lo, não atino
para o desejo que tenho a sonhar.

– Como, do mau posso ser
se de bons modos estou a zelar?
– Atente-se bom cidadão
às vias de um desumanizar,
que de ódio e raiva sustentam
discursos de sofrer e alimentam
abismos de mal-estar.

Fábio Soares. Professor e Mestre em Comunicação.

* Publicados na Coluna Pimenteiro da versão impressa do Jornal Diário Data X de 17 de fevereiro de 2017. 

DE BEM NA LAVANDERIA*

Faça suas orações uma vez por dia. Essa é a primeira parte de um importante conselho de Tom Zé, ao qual emenda “e depois mande a consciência junto com os lençóis para a lavanderia”. A debochada recomendação parece ser mais atual hoje que em 1972, quando foi escrita. Isso porque o recente advento das redes sociais ofereceu, como denunciou Umberto Eco, um megafone a uma legião de idiotas. Sim, de idiotas! Na acepção filosófica, o idiota é por escolha incapaz de alhear-se do mundo, recolher-se no mais íntimo de si, com sua consciência, e responder ao seu inquérito olhando no olho. O idiota é o Hipias Maior do famoso diálogo socrático.
Esse idiota não é burro, muito menos louco. É o cidadão comum da canção de Belchior, ou como é mais conhecido, o cidadão de bem. Acredita que ao fazer o que faz  está construindo um mundo melhor. Regozija-se a cada fim de dia com a prazerosa “sensação da missão cumprida”. Uma das publicações periódicas da Ku Klux Klan, entre 1913 e 1933, era intitulada “O bom cidadão”. Para além disso, os julgamentos dos criminosos nazistas, especialmente, o de Adolf Eichmann em 1962, acompanhado em tempo real por Hannah Arendt assombraram o mundo porque o que se viu é que não eram monstros aqueles homens. Eram normais, comuns, de bem, cujas ações foram monstruosas. Eichmann mesmo era um amável pai de família, dedicado esposo, vizinho querido e, principalmente, já que muito se orgulhava por isso, um cidadão cumpridor das leis. Coordenou, assim, a logística responsável pelo assassinato de mais de 6 milhões de pessoas. Afirmava não nutrir nenhum ódio pessoal por suas vítimas, tendo a sua consciência limpa. Eichmann e os membros da KKK não contavam com o recurso hodierno das redes sociais. Não podiam, assim, em tempo real, no calor da hora, fazer aquilo que é mais característico aos denunciados por Eco, ou seja, expressar-se e agir sem recolher-se em sua consciência, sem considerar a dor do outro.
Dois fatos recentes promoveram a mobilização da legião de idiotas. Os fatos foram inclusive ofuscados pela repercussão e pela manifestação dos refinados “scemos”. O adoecimento repentino e falecimento da ex-primeira-dama  deixou claro o quão longe do bem estão os cidadãos de bem, incapazes de se solidarizar até mesmo com a dor de uma situação limite como a morte. Em seu desejo mortal de aniquilamento, acusam o enlutado de um pecado futuro, imputando dolo de forma vil e covarde. Em Chapecó, cidade recentemente abalada por um acidente com seu time de futebol, que recebeu o abraço do mundo e sua solidariedade, seus cidadãos de bem demonstraram desprezo pela morte absurda de um menino indígena. Um menininho indígena é, inclusive, mascote do referido time. Mas não podemos confundir: é um indiozinho gourmetizado. Para o cidadão de bem chapecoense, índio de verdade tem mais é que morrer, seja de fome, de abandono, ou “na contramão atrapalhando o tráfego”. Que não esqueçam, os bons cidadão, de fazer suas orações uma vez por dia...

Bruno Antonio Picoli – Professor.



EU CIDADÃO DE BEM*

Quantas vezes, penso!
Sobre o a fazer.
De repente, entendo
sobre um tal porquê
que muito orando
e sempre tentando
do bem consigo ser.
É tudo porque não sabia
que uma oração por dia
bom cidadão seria a crer.

Sou vil idiota
de uma consciência a perceber
como perspicaz agiota,
na busca do Belo ver
mas, esqueço-me de tudo
porque de bem e astuto
é o que quero ser.

Quanta indiferença!
E, limpar a consciência:
é só o que penso em fazer.



Fábio Soares. Professor e Mestre em Comunicação.


*Publicados na Coluna Pimenteiro da versão impressa do Jornal Diário Data X de 10 de fevereiro de 2017.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Natal de 2015, clima de solidariedade: abaixo-assinado secreto contra os catadores de lixo em Xanxerê

Em todo Natal, e não diferente foi no Natal passado, fala-se muito em solidariedade, em auxiliar os mais necessitados e em direitos iguais. Engraçado que, em meio ao clima de fraternidade, vários empresários de Xanxerê cobravam do Sr. Prefeito a defesa de um abaixo-assinado secreto (sim, secreto!) contra uma das parcelas mais vulneráveis de nossa sociedade: os catadores de lixo.

Antes de mais nada: ouvir-se falar em abaixo-assinado secreto (no caso, um documento que supostamente existe, mas que não é acessível à população), em pleno século XXI, é ao mesmo tempo a afirmação do absurdo e a negação da democracia.

Enfim, o tal documento foi organizado para pedir que as associações de catadores não se localizassem num loteamento industrial (registrado como tal). A desculpa é que seria poluente – tanto quanto algumas industrias em área residencial, que causam incômodo. Contudo, como estas últimas não são de pessoas de baixa renda, podem continuar (permanecer).

É necessário esclarecer que a atividade de triagem não é poluente. Ela nem exige licenciamento ambiental, porque não lava material nem processa, só separa e embala o que vem das casas dos xanxerenses (material reciclável doméstico, que não pode ser poluente). O tacanho abaixo-assinado secreto defendido em plena véspera de Natal demonstra que igualdade e solidariedade, para alguns que têm poder, são palavras somente para poucos dias do ano e somente para seus pares.

É uma história que se repete: em detrimento dos pareceres técnicos favoráveis aos catadores e de quem trabalha com a especificidade há anos, os políticos administradores preferem atender interesses de particulares ou de assessores que de regra em 4 anos ou menos estarão fora da administração. Mas o ônus é duradouro e fica para cidade, em prejuízo da maioria da população.

Os xanxerenses assistem a história repetir-se desde a Vila União, passando pelo bairro Santa Cruz, Colina Verde, o terminal urbano construído sobre o rio Xanxerê (que atualmente está no local onde os técnicos haviam indicado), a área inadequada comprada para loteamento residencial popular que teve que ser transformado em loteamento industrial... assim, sucedem-se os erros dos que se acham iluminados e acima dos conhecimentos técnicos.

Esses iluminados, agora, buscam respaldo por meio de um abaixo-assinado secreto para prosseguir no mesmo erro. Antes, queriam colocar os catadores em um local distante, sobre um antigo lixão e depósito de dejetos (área já rejeitada pelos protetores dos pequenos animais por ser inadequada). Segundo os iluminados, “é um local bom de mais para os catadores”.

Mas, como nenhum técnico humano aceitaria aprovar um licenciamento para colocá-los sobre um depósito de fezes (técnicos desumanos talvez aceitassem), então os iluminados decidiram só colocá-los longe. Não adianta explicar que a atividade de triagem não é poluente, que os catadores são seres humanos de baixa renda, que nos intervalos costumam ir dar uma olhada nos filhos e na casa (pois, por incrível que pareça aos iluminados, os catadores também têm filhos, família, casa!), que é um ofício pesado que poucos além dos catadores estariam dispostos a fazer pela miséria que ganham... mas não, ainda é maior o desprezo pelos argumentos técnicos, pelo conhecimento e principalmente pelos catadores; tão grande que um absurdo abaixo-assinado secreto serve de argumento para isolá-los.

Porque se assinaria algo e se pediria para que ficasse secreto? Boa questão para quem assinou.

Erros se cometem, e persistir no erro? Os empresários (aqueles do abaixo-assinado secreto), já que se consideram mais competentes que os catadores, poderiam auxiliá-los para serem melhores ainda que os de Chapecó e Xaxim, que contam com várias associações de catadores funcionando em área urbana consolidada (consolidada porque, em Xanxerê, sem imposto progressivo, pastagem pode ser área urbana por décadas e isolar o que é área urbana consolidada).

No Natal, enquanto alguns empresários moviam-se para fazer valer o tal abaixo-assinado, os catadores trabalhavam, pagando aluguel num local sem luz e sem água. A Administração Municipal, por sua vez, entende que deve ajudar só se quiser, a despeito da lei Federal da política nacional de resíduos sólidos 12305/2010 e o decreto 7.404/2010, que a regulamenta, e a lei municipal 3739/2010. Para o Poder Público, as duas associações de catadores recebendo um total de 3 mil reais por mês (suficiente somente para pagar o aluguel do barracão - sem água e sem luz) já está de bom tamanho e, no mais, os catadores teriam que se virar. Na visão do Poder Público, auxílio técnico que viabilizasse a renda de um salário mínimo é uma coisa que catadores não podem precisar.

Seria bom perguntar por que um cargo de confiança (um só) tem que receber mais do que as duas associações recebem para separar todo material da coleta seletiva de Xanxerê? Como o ex-presidente Lula sempre falou, é de conhecimento público caixa dois em administrações públicas – mas tanto para uns e tão pouco para outros? Dois pesos e duas moedas: uns tem que se virar, outros podem receber sem merecer o mesmo dinheiro público?

A justificativa apresentada: as associações recebem pouco porque os catadores não tem formação. Ora, se os catadores não tem formação, para qualquer bom entendedor, de espirito humano e solidário, logo precisam de auxílio técnico – o que ajudaria a esclarecer inclusive aos mentores e assinantes do abaixo-assinado secreto.

Os mesmos empresários, administradores, políticos e politiqueiros que, em “época de solidariedade”, assinaram ou utilizaram o tal abaixo-assinado secreto deveriam mesmo é prestar auxílio aos catadores, para que a atividade (que, repetimos, nem exige licenciamento ambiental) funcionasse de forma adequada e digna aos catadores, como em outros municípios com maior senso de humanidade.

P.s.: Após o acidente com mais um catador/carroceiro neste mês (e haviam crianças tanto na carroça do acidente da Av. Brasil quanto no acidente próximo ao Vegetariano) a pergunta que fica: “os que tem poder (político, administrativo, legislativo, judiciário) estão esperando morrer mais alguém para efetivar a melhoria das condições de trabalho dos catadores para que seja mais vantajoso para eles permanecerem nas associações de catadores do que nas ruas?”

Gedis

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Prognóstico sobre a nova paralisação dos caminhoneiros no Brasil

Notícias recentes dão conta da existência de nova paralisação dos caminhoneiros em vários pontos do Brasil. Não se sabe ao certo o teor da pauta de reivindicações. O que se sabe, a princípio, é que mais uma vez o movimento dos caminhoneiros é cerceado por pautas totalmente alheias às reivindicações da categoria. Os veículos de comunicação indicam razões diferentes para as paralizações, que vão desde negociações frustradas com o governo federal até a saída de Dilma.

Portanto, tudo indica que haverá uma nova tentativa de utilização da classe dos caminhoneiros como massa de manobra para fins políticos. Importante observar: os caminhoneiros empregados, que compõem grande parte da frota brasileira, não têm muita escolha, pois estão submetidos aos interesses de seus empregadores. Estes, por sua vez, estão em sua maioria contra o governo petista. Também há os empregados e caminhoneiros autônomos que compram a lógica dos patrões e da massa, passando a deliberadamente acreditar nesse discurso requentado e seletivamente antipetista. Logo, não é de se estranhar que a mobilização tome corpo dessa forma repentina, mesmo sem um motivo extraordinário que justifique a instantaneidade da mobilização e sem o apoio dos sindicatos da categoria. Vejam: os próprios sindicatos declaram inexistir uma pauta de reivindicações além da pauta “anti-PT”.

Na verdade, as reivindicações da paralisação atual não têm nada a ver com a categoria dos caminhoneiros. Trata-se, obviamente, de um ato político, grosseiro, que se utiliza da força e da importância do caminhoneiro como forma de instituir um estado de caos econômico que inevitavelmente será atribuído ao governo de Dilma.

Assim, é possível afirmar, a título de prognóstico, que se trata de mais uma tentativa golpista encetada principalmente por empresários do ramo de transporte de cargas para destituir um governo eleito democraticamente pela maioria dos votos diretos e iguais de toda a população brasileira. Isso demonstra que a democracia brasileira ainda não amadureceu – não se vê nos Estados Unidos, por exemplo, tentativas desse calibre para destituir o presidente Obama, em que pese haja uma oposição atuante naquele país.

É preciso saber viver em uma democracia. Para isso, é importante, no mínimo, aceitar o resultado das eleições. A partir daí, fazer oposição para, no próximo pleito, tentar uma vitória democrática, com o voto da maioria dos cidadãos brasileiros – como o foi a vitória da atual presidenta Dilma Rousseff.

Utilizar os caminhoneiros, trabalhadores de extrema importância para o Brasil, como forma de se sobrepor ao resultado das urnas é nada mais que tentar impor goela abaixo um governo diverso daquele eleito pelo voto popular. Em outras palavras: utilizar o trabalhador como ferramenta para invalidar a vontade do voto do povo.

Luís Henrique Kohl Camargo - Gedis

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A redação do Enem e a violência contra a mulher

O tema da redação do Enem 2015 foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Em muito boa hora: na quarta-feira passada, dia 21/10/2015, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a proposta de lei que visa dificultar o acesso à pílula do dia seguinte e a tratamentos abortivos, mesmo às mulheres que foram estupradas.

A violência contra a mulher está tão infiltrada em nosso cotidiano que, muitas vezes, nem sequer a percebemos. Já estamos tão acostumados que essa triste realidade tornou-se um simples detalhe de plano de fundo da sociedade.

Por incrível que pareça, estamos acostumados com a cultura do estupro. Chegamos a aconselhar nossas meninas a vestirem-se de certa forma que não atraia olhares e desejos de estupradores em potencial. Mas vamos além: culpamos aquela moça que transgrediu essa regra, afinal, minissaia, sozinha à noite é igual a “pedir para ser estuprada”.

Estamos acostumados com o terceiro turno feminino. A mulher trabalha, estuda, volta para casa e precisa cuidar dos filhos e fazer comida para si, para as crianças e... para o marido! Isso ainda é uma realidade em muitas famílias, mas não deixa de ser uma violência contra a mulher.

A mulher é assediada no trabalho, na rua, na universidade, na escola. Afinal, temos como normal que o homem tenha mais desejo sexual do que a mulher. O desrespeito é normal, o constrangimento feminino é normal, a crueldade logo passa a ser normal. Mas, não satisfeitos com esse vergonhoso contexto social, novamente vamos além: orientamos as mulheres a “não dar mole”, a “cuidar suas condutas”. Castramos as mulheres, fazendo-as duplamente vítimas: a uma, porque foram vítimas do assédio; a duas, porque não se comportaram da forma adequada para evitar o assédio!

A violência contra a mulher vai além da agressão física. Aliás, essa é apenas a ponta de um gigantesco iceberg. Ela está em nosso dia-a-dia, principalmente no dia-a-dia das mulheres. Ela atua contra a sexualidade da mulher, contra o comportamento da mulher, contra a identidade da mulher, contra o trabalho da mulher, contra o corpo da mulher.

Como se não bastasse, alguns sujeitos morbidamente instalados na Câmara dos Deputados decidiram ajudar: resolveram dificultar ainda mais a vida da mulher – veja, e não de qualquer mulher, mas da mulher vítima, a mulher estuprada, a mulher em crise. Em nome de uma bancada pseudo-religiosa, os direitos das mulheres são novamente alvejados.

A ala conservadora vem conseguindo atingir seus objetivos: conservar a triste, humilhante e sofrida realidade da mulher brasileira na atualidade.

Luís Henrique Kohl Camargo - Gedis

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Perdendo direitos

A memória é fraca.

De exceção em exceção...
Não faz um século que o mundo ocidental instituiu os direitos humanos. São garantias humanas, logo, são de todos aqueles que detém a qualidade de ser humano. Servem para vilões e mocinhos, bandidos e vítimas. Foram criados após a Segunda Guerra Mundial, por uma humanidade perplexa diante dos abusos que o poder sem limites poderia praticar. A finalidade de sua criação: preservar o mínimo de dignidade a todas as pessoas. Todas as pessoas. Sem exceção.

Acontece que o tempo vai passando, os corvos comem as migalhas espalhadas pelo chão e não lembramos do caminho de volta. Mudam as circunstâncias e chegamos ao ponto de pensar que exceções são necessárias.

É, porque hoje em dia direitos humanos não mais nos servem... melhor dizendo, servem apenas para alguns. Certos seres humanos não devem ter direitos humanos... melhor dizendo: alguns nem sequer são seres humanos, são monstros! Bandidos! Estupradores! Assassinos! etc etc. E para essa corja não há direito que lhe seja mais cabível do que a morte, e de preferência uma morte bem sofrida e dolorosa.

Exceções são necessárias porque o processo é muito demorado. Aí, é preciso relativizar a presunção de inocência (“inocente até prova em contrário”) para em tese compensar esse “sentimento de impunidade” da população. Portanto, em alguns casos, mas somente em alguns, o sujeito é culpado até provar ser inocente.

Exceções são necessárias àquele que sonega impostos, pois na verdade está apenas “se defendendo da tributação excessiva”. Agora, o político corrupto, esse deveria ser enforcado! Ele está desviando dinheiro público para fins privados!

Exceções são necessárias quando nosso candidato não vence as eleições e precisamos a todo custo derrubar o vencedor. Aí inventamos as maiores gambiarras jurídicas para embasar formalmente qualquer coisa que sirva para o impeachment. Queremos derrubar aqueles que não desejamos fossem eleitos, afinal, representamos a voz do povo! (Um povo que, no dia das eleições, votou majoritariamente para o candidato que agora o povo, supostamente, quer derrubar.)

Exceções são necessárias no direito à vida daqueles que chamamos bandidos. Execuções sumárias por policiais são até saudáveis. Prisões arbitrárias, chacinas, são apenas formas de defesa. Afinal, alguém precisa fazer a mesma coisa que fazem os bandidos: matar.

Assim, de exceção em exceção, perdemos o caminho de volta. Esquecemos a história.

De exceção em exceção vamos construindo esse ambiente conflituoso de ódio e medo, de uns contra os outros, de nós contra eles. E todos saem perdendo nessa briga: aqueles que se trancam em suas casas, aqueles que são trancados nas cadeias e aqueles que sentem medo ao andar na rua.

A coisa chegou ao ponto de sermos classificados pela roupa que vestimos, pelo jeito que falamos, pela cor da nossa pele, pela nossa aparência física!

Nesse rumo, estamos perdendo direitos que foram instituídos justamente em razão de toda a dor causada pela batalha de homens contra homens.

Luís Henrique Kohl Camargo - Gedis

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Falta de vontade ou falta de estrutura?

Fomos ensinados a considerar as pessoas conforme seus méritos. Também fomos ensinados a visualizar mais o resultado do que o processo. Realmente, a vida fica muito mais simples desse jeito: basta você ver um grande empresário, nele você vê um grande homem ou uma grande mulher. Você vê um juiz, um promotor, um rico fazendeiro. Pessoas que de certa forma são exemplo para os demais. Muito provavelmente são pessoas que se esforçaram muito para estar onde estão, afinal, mesmo que o sujeito receba tudo de herança, ainda assim a manutenção e reprodução da riqueza exige, de fato, habilidade e esforço. Veja: isso é só o resultado.

O processo que leva até o resultado embasa aquilo que chamamos de “mérito”. No entanto, costumamos tratar o mérito de uma forma míope: consideramos o mérito apenas um produto da vontade. Isso não corresponde à realidade. O mérito surge a partir de uma delicada equação entre vontade e estrutura.

O primeiro elemento dessa equação, ou seja, a vontade, surge a partir da condição de liberdade do homem. Dentro de cada ser humano há um ponto inalcançável, indomável, e esse ponto é a liberdade. Escravos que fugiam para os quilombos em busca da liberdade agiam assim porque já estavam em processo de libertação. Escolheram a fuga. Por outro lado, a liberdade faz-nos responder por nossos atos, de forma que somos responsáveis por tudo aquilo que é fruto de nossa escolha.

Portanto, se o sujeito não tem vontade de estudar, obviamente responderá por sua negligência e estará fadado a profissões que não envolvam o intelecto. Em nossa sociedade, esse sujeito geralmente é marginalizado e destinado aos trabalhos mais precários e mais miseráveis. Achamos isso justo porque se acredita que o sujeito não teve o “mérito” de atingir uma posição social superior. Faz sentido, mas é insuficiente.

Insuficiente porque existe o outro lado da equação: a estrutura. Costumamos esquecer que não escolhemos o útero em que fomos concebidos, e isso faz toda a diferença em nossas vidas. Há quem nasça nos cantos mais pobres, desconhecem seus pais e estudam nas piores escolas. Há quem nasça em lugares refinados, numa família tradicional cuja cultura é pautada no estudo e na reflexão. Obviamente, cada uma dessas crianças absorverá uma cultura diferente, e isso influencia suas escolhas. Por exemplo: é mais provável que a primeira criança tenha mais dificuldade do que a segunda em questões intelectuais, por uma série de fatores: dificuldade para disciplina nos estudos, dificuldade de assimilação pela ausência de conteúdos básicos, dificuldade decorrente da falta de costume ou de convivência com outras pessoas que têm o mesmo objetivo etc.

Lógico que existem aqueles que saem dos lugares mais improváveis, mais pobres e miseráveis, e com muito esforço atingem uma posição social de prestígio. Há também aqueles que nasceram com toda a estrutura, mas que não tiveram êxito em seus planos. No entanto, a estatística mostra que essas pessoas são exceções. Mesmo porque, para atingir um mesmo objetivo, a força de vontade exigida daquele que tem menos estrutura é muito maior do que o esforço exigido daquele que tem mais estrutura.

Intencionalmente, essa balança é esquecida, vingando no lugar dela uma equação mais simples que envolve apenas “força de vontade”. Acontece que “força de vontade” por si só não faz nada, nem leva ninguém a lugar nenhum.

Se você não acredita, lanço um desafio: se teu filho está numa escola particular, matricule-o na escola pública, de preferência uma de pior qualidade, para que ele mostre para você o que faz apenas com sua “força de vontade”. Pare de incentivá-lo na leitura, no estudo, na disciplina. Deixe-o fazer por si só. Dessa maneira, será mais fácil observar o resultado da “força de vontade” sem a influência da “estrutura”.

Acredito que a maioria não aceitará o desafio, nem mudará de opinião. Afinal, é muito mais simples – e vantajoso, para alguns – visualizar apenas o resultado, e não o processo que leva até ele.

Luís Henrique Kohl Camargo - Gedis

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Pequeno manual de bom comportamento do homem íntegro

Sexy sem ser vulgar.
Um homem íntegro tem que se valorizar, se dar o respeito. Tomar cuidado na forma como se comporta em sociedade.

Não pode ser muito fácil com as garotas. Sair na primeira noite? Nunca! A moça vai logo achar que você é um vagabundo, um vadio, um vulgar. Aí vai te usar e jogar fora na primeira oportunidade. Tome cuidado que se você pegar a pecha de vagabundo, até os teus amigos vão te julgar.

O ideal é ir com cuidado e conhecer a garota aos poucos e não tomar nenhuma atitude que demonstre um pouco mais de audácia. Enquanto isso é só esperar e deixar que ela faça suas propostas.

Hoje em dia, o homem precisa se cuidar. Não pode se dar o luxo de andar na rua, à noite, sozinho por aí. E não vale reclamar depois porque homem que faz isso está pedindo!

O homem ideal sempre está limpo e bem arrumado. Unhas feitas, cabelo bem lavado, pode até deixar a barba um pouco crescidinha (atualmente é do agrado do público feminino e é sexy sem ser vulgar).

Você, homem, pode até optar por looks um pouco ousados, mas cuidado para não ser grosseiro: às vezes um botão aberto de forma a mostrar levemente o busto, ou uma calça um pouco mais apertadinha. Mas atenção, se parecer vulgar, terá problemas. O homem pra casar é uma mistura de sensibilidade e puritanismo. Passou disso, passará à categoria de homem só pra pegar.

Entenda uma coisa: todas as mulheres são iguais, elas só pensam naquilo. Elas querem aquilo o tempo todo. E você tem o que elas querem. Por essa razão é muito importante ter autocontrole, afinal você homem não quer apenas uma noite, não é? Ou quer ser apenas um brinquedo nas mãos de uma mulher que só quer te usar? Lógico que não.

Mulheres têm tendência a mentir e inventar as maiores coisas só para levar qualquer homem para a cama. Muita calma nessa hora! É preciso tomar muito cuidado e ser bastante ponderado antes de decidir ir para a hora fatal, porque depois pode ser tarde demais. Passou da porta do motel, não tem mais volta. E se na hora do vamos ver você mostrar que está à vontade, a gata pode achar você experiente até demais e provavelmente não vai querer nada mais sério contigo.

Homem íntegro também toma cuidado para não sorrir muito para mulheres no trabalho. Pode parecer que você está dando mole para elas, e isso não soa bem para um homem pra casar.

Você, que é um homem que se valoriza, continue tomando bastante cuidado com suas atitudes, porque se você passar um pouco dos limites não vai ser fácil mudar sua imagem e, enquanto isso, as mulheres só vão te procurar pra aquilo. E não é isso que você quer, não é mesmo!?

Cíntia Tirloni Zandoná e Luís Henrique Kohl Camargo - Gedis

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Manifesto pelo direito de ir para o Inferno


Há dois caminhos possíveis: Céu e Inferno. Ao morrer, alguns vão para um, outros para o outro.  Os signatários deste manifestam seu desejo de fazer tudo certinho e mesmo assim ir para o Inferno. Os motivos estão listados abaixo:

1. Se o Deputado Eduardo Cunha vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
2. Se o Pastor Silas Malafaia vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
3. Se o Deputado Pastor Marco Feliciano vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
4. Se o Senador Magno Malta vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
5. Se o Deputado Celso Russomano vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
6. Se o Pastor Valdomiro Santiago vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
7. Se o Senador Marcelo Crivella vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
8. Se o Pastor Edir Macedo vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
9. Se o ex-deputado Anthony Garotinho vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
10. Se o Deputado Missionário José Olímpio vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
11. Se o Deputado Carlos Manato vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!
12. E se o restante da Bancada Evangélica vai para o Céu, queremos ir para o Inferno!

Afinal, uma vida terrena já é demais para se conviver com eles... e o pior que pode acontecer é sermos perdoados!

Para assinar o manifesto e para ver a lista completa dos signatários, clique aqui ou acesse: https://secure.avaaz.org/po/petition/Congresso_Nacional_Brasilia_Assegure_nosso_direito_constitucional_de_ir_para_o_Inferno/?njQUFjb