sexta-feira, 26 de maio de 2017

MATERNIDADE (DES)CONSTRUÍDA*

Parafraseando Simone de Beauvoir, não se nasce mãe, torna-se mãe. O tal instinto materno não existe, é introjetado desde o primeiro presente que uma menina geralmente ganha: boneca. O que há é o mito da mulher como máquina reprodutora de bebês e uma construção social em torno disso. Nem todas cultivam na vida adulta o sonho induzido na infância de ser mãe. Há aquelas que não almejavam a maternidade nem quando pequenas. E isso, de modo algum, significa não gostar de criança! Por vezes, não querer ter filhos é uma decisão altruísta.
A mulher é idealizada pela sociedade já no ventre materno: ‘fure a orelha!’, ‘use rosa!’, ‘brinque de casinha!’, ‘sente direito!’, ‘isso não é coisa de menina!’, ‘se depile!’, ‘essa saia tá muito curta!’, ‘batom vermelho tá pedindo!’, ‘tem que saber cozinhar!’, ‘case!’, ‘seja mãe!’. Aprendemos desde cedo as ‘boas maneiras’ para, no futuro, sermos mães e esposas convenientes. Ensinam-nos rapidamente que para sermos completas precisamos de filhos (de preferência mais que um) e um companheiro ao nosso lado. A própria referência à menina como princesa, comumente utilizada, sugere fragilidade e necessidade da figura masculina para proteger e sustentar. Sai o pai, entra o marido.
A única característica biológica que difere mulher e homem nos cuidados de uma criança é a amamentação no peito. Trocar fralda, dar comida ou ir à reunião de pais na escola não demanda nenhum outro atributo biológico especial. Porém, são raros os pais que, de fato, são presentes no dia a dia de suas crias. O patriarcado ainda é tão forte entre nós que a ideia do pai-ajudante-de-mãe é aceita naturalmente. Se ele cumpre suas responsabilidades enquanto pai, é chamado de paizão. E a mãe de sortuda! Quando na verdade está tão somente exercendo a paternidade, dividindo a criação dos filhos com a genitora.
Não é necessário ser mãe para saber que a fantasia de maternidade romântica, perfeita e maravilhosa, que toda mulher deveria vivenciar, é uma falácia. Não precisa ser mãe para se sentir completa e realizada. Escolher não ser mãe é um direito reprodutivo e isso não a minimiza ou a deixa menos mulher. Respeitemos! A maternidade deve ser uma escolha, não um fardo do qual não se pode escapar. Mãe sente, é igualmente gente. Parabéns, e não só neste domingo, às mães que também choram e reclamam. Que carregam a dupla ou tripla jornada. Que se sentem sozinhas, cansadas, inseguras e, às vezes, se arrependem e têm vontade de chutar o balde. Que possuem sonhos, desejos e vontades próprias. Dia das mães é mais uma data inventada pela sociedade de consumo, que vende a romantização da maternidade para gerar lucro.

Regina Miliorança



COMPULSÓRIA MÃE*

Mãe é Mãe né pai!
Como assim pensamos?

Introjetados e persuadidos
pela ilusória notoriedade
que a maternidade representa
em nossa sociedade.
É quase uma obrigação
ter filhos de montão:
compulsória maternidade.

Ainda lembro minha vó -
21 dos 14 vivos.
Um ano pra cada um
de longos partos repetidos.
Nem tudo foi alegria
pois a obrigação se fazia
em atender o vovô atrevido!

Lembro também da mamãe –
5 vivos e ela encantou
Deixou seu legado materno
que sempre vontade narrou.
Vil construção patriarcal
Que em encontro dominical
Tanto se consolidou.

Pra muitos: um dom divino.
Pra outras: possível questão.
O importante é compreender
o que se faz em construção.
Seja a mãe reprodutora
ou a escolha emancipadora,
ser Mãe é sempre opção.

Professor Fábio Soares

* Publicados na Coluna Pimenteiro na versão impressa do Diário Data X de 12 de maio de 2017

Nenhum comentário:

Postar um comentário