sexta-feira, 18 de agosto de 2017



UM BRINDE AO INDESPERTO

Ontem à noite, ele não pôde dormir. A insônia, que se tornara uma amiga íntima nos últimos tempos, lhe fizera companhia até mais tarde. Abriram uma garrafa de vinho e engataram uma conversa sobre a escola, seu ambiente de trabalho. Contou-lhe a rotina. Falta de materiais para trabalhar. Falta de estrutura física decente para abrigar os estudantes. Salário sem reajustes. Reformas ‘temerosas’. Desanimou. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações e desistiu da ideia.
Engataram uma conversa sobre teoria da conspiração e sobre a morte de um delegado que investigava a morte de um ministro. Duas mortes envoltas em mistério. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações e desistiu da ideia.
Engataram uma conversa sobre as próximas eleições e os possíveis candidatos de uma lista que sequer existe. Quis argumentar sobre a importância de lutar por eleições diretas no exato momento, mas lembrou-se do último protesto que acontecera na região e do minguado número de participantes. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações e desistiu da ideia.
Engataram uma conversa sobre um sujeito queridinho de uma galera conservadora, sedenta por heróis de estimação. Sujeito esse, ícone de xenofobia, misoginia e homofobia. A empatia por quem sofre diariamente o entristeceu. Ficou receoso em transformar a noite num poço de lamentações, mas, desta vez, não desistiu da ideia. Decidiu encarar suas angústias de frente.
Engataram uma conversa sobre a diversidade religiosa e o punhado de gente que não se identifica com religião alguma. Ele próprio já não se identificava com nenhum tipo de esperança de sociedade utópica para a humanidade. Lembrou-se dos sujeitos que definem padrões de normalidade às vidas alheias. Refletiu sobre o ‘conceito’ de normalidade. O ‘conceito’ de personalidade também lhe pareceu um asqueroso conjunto de rótulos, colecionados ao longo das vidas que buscam um sentido à existência. Utilizado para justificar arrogância e destilar ódio, camuflado em piadas e opiniões.
Engataram uma conversa sobre o absurdo da existência. Lembrou-se de suas tarefas diárias. Precisava ter dormido. Não obstante reconheça a falta de sentido dessas, continuava executando-as com resignação. A essa altura, a insônia já tomara seu último gole de vinho. Observara o rosto angustiado daquele indivíduo solitário, altruísta e conscientemente destituído de qualquer verdade. Amanhecia. Ela despedira-se carinhosamente, presumindo um retorno na noite seguinte.

Beatriz Soares, professora


ELA

Por quanto à espera
de noites em cumplicidade.
Destratos e querelas
entre eu e a verdade.
Sobre uma ontologia utópica
de entremeios e sempre à volta
de intangível serenidade.

A taça de vinho medeia
reflexos e reflexão
sobre movimentos agudos
e tanta corrupção.
Mesmo que nosso intento
não fosse inteiriço lamento
mudávamos de direção.

Ela
Insistente e atrevida
me instigava a pensar
sobre abusos e modos
de nosso ser e estar.
Dava-me chances intensas
a fio de horas imensas
e prestes a transformar.

Ela
Abraçava-me em ternura
em aparente ninar.
Contanto que não findasse
aquele turbilhão de idear.
E ao contrário que pensava
Ao invés de noite clara
Clarificou meu olhar.

Ela
De tanto
e tudo sobre tanto
me fez fugir de um tratar.
Tentei, tentei tanto
Mas como não lamentar?
Deste estado de coisas.
Destas coisas em estado
de nos abocanhar.

Aquela noite foi Ela
que me transformou desnudo.
do branco ao tinto rubi
letargia em pensar astuto.
E apesar da despedida
que se pôs em desmedida
prometeu voltar contudo.

Fabio Soares, Professor




Publicados em 09 de junho na Coluna Pimenteiro do Diário Data X

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